(3) "Chamavam-me de professor" (ou um chamado para ser professor)

Ser chamado de professor na época de estudante pelos colegas de aula ou de curso é o fato que identifica a trajetória dos Professores José Flori, Sandro e Ademar. Ser chamado de professor pelos colegas, seja pelo fato de estar sempre explicando algo para os outros, seja pelo fato de ir em horários alternativos à Universidade para auxiliar um grupo de colegas, ou mesmo pelo fato de, ainda enquanto aluno do curso, assumir - eventual e definitivamente - o lugar do professor, é marca de um passado-presente de um jeito de ser docente e, fundamentalmente, o embrião do pensar em ser professor, a semente de um possível tornar-se docente (e, assim, atender o chamado).

“(...) eu estudava muito e gostava daquilo ali. Como eu gostava eu estudava muito (...) tinha um grupo de colegas (...) junto comigo... sempre explicando as coisas para os outros, sempre em detalhes... inclusive os caras até me chamavam de professor já na época. (...) chamavam-me de: professor e tal... porque eu vivia explicando as coisas” (José Flori, 51, Prof. Desenho Técnico e CAD, Relato de Vida, linhas 50-57).

“(...) eu tinha colegas que me perguntavam: escuta tu não quer nos ajudar aqui, eu vi que tu entendeu bem isso ai" (Sandro, 35, Prof. de Eletrônica, Relato de Vida, linhas 445-446)

“(...) teve provas assim de até fazer um grupinho. Ah, tu pode vir, escuta: Não seria pedir demais se puder vir antes. Não, tudo bem, sem problema né. Sempre, sempre estive meio aberto a essa coisa assim né. Ai até uma manhã eu fui lá na PUC, numa disciplina, não me lembro qual era, e fiquei sentado tinha quatro colegas e eu fiquei dando uma, uma aula assim: Ah não isso é assim, isso é assim tal (...) no quadro explicando para um: tal, faz assim, eu explicava e eles ali, perguntava se entendia, não, entendi e tal. E aí de vez em quando saia uns comentários assim: Bah, mas tu explica melhor que o professor, né. (...) e de vez em quando perguntavam: Tu nunca pensou em ser professor, em dar aula?". (Sandro, 35, Prof. de Eletrônica, Relato de Vida, linhas 460-471)

“(...) eu ia explicar para alguém e essa pessoa me dizer: ó se tu tá explicando melhor do que o professor, ou tu me explicou e eu entendi”. (Sandro, 35, Prof. de Eletrônica, Relato de Vida, linhas 475-477)

“(...) me disponho e tal, ensinar o que eu sabia fazer, ficava bem satisfeito quando as pessoas diziam: (...) passei na disciplina! (...) fui bem, consegui fazer um trabalho e obrigado e tal, me dava um sentimento de prazer, assim ó muito gostoso. Ai comecei a pensar seriamente no assunto, em ser professor, (...) vou ser professor né”. (Sandro, 35, Prof. de Eletrônica, Relato de Vida, linhas 491-494)

“(...) eu passei de aluno pra professor, e praticamente tomei o lugar do professor (risos). O professor, ele tinha um grande conhecimento só que ele não tinha didática, então o pessoal não entendia o que ele falava, então eu passei pro lugar dele. (...) nós vamos montar um curso aqui e nós estamos treinando professores, precisamos de professores, e nós gostamos muito do teu jeito de dar aula” (Ademar, 50, Prof. de Automação Industrial, Relato de Vida, linhas 608-622).

“Um excelente professor. Daí [o professor] perguntou: “e aí pessoal, entenderam? Ah, não... [Responderam os alunos:] Daí, professor: Fala Ademar... De repente eu podia explicar de maneira diferente, pra ver se os caras entendem? Mas bah, excelente, vem aqui.... Louco pra se ver livre do abacaxi...(risos) aí eu fui lá na frente, expliquei (...). Daí ele: Bah, eu nunca teria pensado nisso, nessa maneira diferente de explicar o mesmo assunto! Todo mundo entendeu porque era uma maneira bem simples é... uma maneira diferente... Valoriza outras coisas, dá exemplo... exemplo daqui, exemplo de lá, faz assim, faz assim, faz assado... e o pessoal, bah, realmente...peguei uma salva de palma ali de graça (risos) e ele ficou super satisfeito.” (Ademar, 50, Prof. de Automação Industrial, Relato de Vida, linhas 475-487)

A vida apresenta suas incógnitas, a vida é recheada de dúvidas. Pergunta e reflete o Professor Sidney: "será que eu vou ser um professor?" A resposta vem do professor-psicólogo que o orienta e o influencia: se se preparar bem, sim. A identificação com a docência é mediada pelo professor, um orientador que, de certa forma, contribui para a decisão do estudante de didática para o ensino industrial em aceitar o chamado: ser professor. E eu logo de cara me identifiquei!

“Aí entrei para o curso de didática para o ensino industrial. Como eu já tinha o técnico em máquinas e motores... o curso falava daquelas disciplinas de... metodologia do ensino, didática geral, didática especial, recursos audiovisuais... psicologia da educação... e ali de novo, o rumo foi encaminhado. Um professor, agora não me recordo o nome dele, era um psicólogo...aí eu, com aquelas dúvidas que a gente tinha, será que eu vou ser um professor? Ele disse que sim, que se a gente se preparasse bem, seria um bom professor. E eu logo de cara me identifiquei!” (Sidney, 60, Coordenador Técnico, Relato de Vida, linhas 48-55)

De novo, um rumo foi encaminhado: ser professor. Um novo rumo influenciado por seu professor.