(7) O ritual do prosaico e do poético

É importante destacar que, para muito além dos compromissos profissionais e educativos firmados entre docentes, escola e alunos, mediados pelos objetivos de uma formação técnica, para além da função social e educativa da instituição escola e dos docentes que ali atuam, existe algo que pulula, que borbulha, que brota dessa dinâmica social tecida junto na escola. Basta viver, conviver e mergulhar no dia a dia de uma escola para captar e perceber que a vida na escola é sustentada para muito além dos compromissos prosaicos das pessoas que ali convivem.

A vida do homem, diz Morin (2001, p.35) é sustentada pela complementariedade de duas linguagens: "uma, racional, empírica, prática, técnica; outra, simbólica, mítica, mágica". A primeira chamada de prosaica e a segunda de poética. No cotidiano, embebido por este estado prosaico, manifesta-se também a vida em forma de poesia. "O homem habita a terra poeticamente" diz Hölderlin. Já Morin (2001, p. 36) acredita que "o homem a habita, simultaneamente, poética e prosaicamente. Em nossas vidas, convivemos com essa dupla existência, essa dupla polaridade".

Assim como em algumas sociedades arcaicas, é possível de se pensar que também na escola, embora com perspectivas singulares, há uma relação entre estes estados de poesia e prosa que, de certa forma, estão, sim, entrelaçados. Na escola há tempos, momentos, espaços em que poesia e prosa constituem o tecido da sua vida. O trabalho de ensinar, o trabalho educativo, muitas vezes visto em seu sentido mais prosaico, na perspectiva do cumprimento dos objetivos, burocracias, horários, fragmentações, etc., é recheado de sabor, música, dança, ritmo, poesia, rituais, celebrações, cerimônias, festividades, encontros, despedidas, dores e alegrias. A vida na escola não é partida em estados segmentados, ela é partilhada com, é compartilhada. Se, como destaca Morin (2001, p.37) "em nossas sociedades contemporâneas ocidentais operou-se uma disjunção entre os estados da prosa e da poesia", e mais do que isso, relegou-se esta a um modo "inferiorizado em relação à prosa da vida", é possível de se captar nas minúsculas ações do cotidiano a poesia da vida, que não podem mais ser negligenciadas na análise social (MAFFESOLI). Foi isso que procurei focar neste estudo. Aquilo que liga, conecta e amarra ao outro, as emoções éticas manifestadas no estar-junto da docência na escola de educação profissional. E contaminados por uma razão aberta, lançamo-nos na compreensão poética das coisas. Em outras palavras, procuramos captar a poesia que brota do prosaico.